A Estética da Verdade
- Camilla D'Anunziata
- há 4 dias
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Houve um tempo em que o surrealismo nos levava ao mundo dos sonhos, ao que fugia do real.
Hoje, a coisa se inverteu.
O que mais nos desconcerta é o que parece real demais.
A imagem gerada por inteligência artificial não é mais um delírio é uma simulação tão perfeita que assusta.
O surreal agora é a verossimilhança.
É o real replicado ao ponto de se tornar falso. A estética do impossível foi engolida pela estética do hiperpossível.
E nessa overdose de perfeição digital, de pele HD e olhos brilhando como renderização, ficamos cada vez mais distantes de nós mesmos.
Enquanto fora tudo se alisa, se filtra, se aprimora, dentro o corpo range.
As doenças crescem silenciosas.
As dores emocionais pedem passagem. Tomamos remédios para dormir, para acordar, para viver. E sorrimos para a câmera com o rosto que não temos mais. Talvez por isso uma nova estética esteja emergindo; não a estética da beleza, mas a da verdade.
A pele marcada, o defeito no corte, a composição estranha, torta, falha, mas viva. Talvez seja esse o verdadeiro surrealismo de agora: assumir o erro, o ruído, o incômodo. Aceitar o estranho como forma de voltar para casa.
O futuro da estética pode não ser o do deslumbre.
Mas o do desencaixe honesto.
Do reflexo que não tenta agradar, mas revela.
Porque o excesso de perfeição também é uma máscara.
E toda máscara, um dia, escorrega.




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