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A Estética da Verdade

Houve um tempo em que o surrealismo nos levava ao mundo dos sonhos, ao que fugia do real.


Hoje, a coisa se inverteu.



O que mais nos desconcerta é o que parece real demais.

A imagem gerada por inteligência artificial não é mais um delírio 
é uma simulação tão perfeita que assusta.



O surreal agora é a verossimilhança.


É o real replicado ao ponto de se tornar falso. A estética do impossível foi engolida pela estética do hiperpossível.



E nessa overdose de perfeição digital, de pele HD e olhos brilhando como renderização,
 ficamos cada vez mais distantes de nós mesmos.

Enquanto fora tudo se alisa, se filtra, se aprimora,
dentro o corpo range.
 

 

As doenças crescem silenciosas.


As dores emocionais pedem passagem.
Tomamos remédios para dormir, para acordar, para viver.
E sorrimos para a câmera com o rosto que não temos mais. Talvez por isso uma nova estética esteja emergindo; 
não a estética da beleza,
 mas a da verdade.

 

A pele marcada, o defeito no corte,
 a composição estranha, torta, falha,
 mas viva. Talvez seja esse o verdadeiro surrealismo de agora: 
assumir o erro, o ruído, o incômodo.
 Aceitar o estranho como forma de voltar para casa.


O futuro da estética pode não ser o do deslumbre.


Mas o do desencaixe honesto.


Do reflexo que não tenta agradar,
mas revela.


Porque o excesso de perfeição também é uma máscara.


E toda máscara, um dia, escorrega.


 

 

 

 

 
 
 

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