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Memória: uma tentativa sofisticada de congelar uma miragem.

Quase toda arte começa assim.

Com o gesto de resgatar. De fixar. De eternizar algo que, já se foi.

 

A gente pinta o que sentiu, esculpe o que não entende mais, escreve o que achou que viveu.

A memória vira matéria-prima.

E o passado, museu.

 

Mas e se o passado não for confiável?

E se a lembrança for apenas uma reconstrução, moldada no agora?

E se tudo que chamamos de memória for, na verdade, só mais uma forma de imaginação?

 

Pausa.

Respira.

Fecha os olhos.

 

Lembra de algo.

Percebe como você vê essa cena?

Você tá dentro dela? Se observa de fora?

Ela tem cor, Som, Movimento?

Ou já virou mais símbolo do que fato?

 

O que você está vendo não é o que aconteceu.

É o que sua mente conseguiu guardar.

Ou melhor, refazer.

A cada vez que você lembra, você edita.

Adiciona luz, tira ruído, troca a ordem dos eventos.

 

Você não lembra.

Você recria.

 

E se for assim, a arte que nasce da memória, nasce de uma miragem.

De uma ilusão recontada com afeto, dor ou estética.

 

O perigo não está em criar a partir da memória.

Está em acreditar que ela é real.

Que ela é fiel.

Que ela é base.

 

Talvez os museus sejam templos da ilusão.

Talvez muitos processos artísticos sejam só tentativas de reviver o que nunca mais será.

Ou pior, o que talvez nunca foi.

 

A pergunta que fica é:

Será que a arte, do jeito que a gente conhece, não é só uma forma elegante de repetir padrões internos?

Será que chamar de “memória” é só uma desculpa bonita pra não mudar?

 

Quem cria a partir da lembrança está criando a partir do presente.

Porque a lembrança só existe aqui, agora, na sua mente.

 

Então talvez a única arte realmente viva, seja aquela que nasce do que ainda não aconteceu.

 

Mas dependendo do ponto de vista, nada nunca aconteceu, e nada irá acontecer.

Só existe o eterno agora.


 

 
 
 

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